A vida na colônia


A Colônia Azambuja foi fundada em 28 de abril de 1877 a partir da primeira Lei Imperial Brasileira de Fomento à Imigração nº 3784/1867 e sancionada pelo Imperador Dom Pedro II, sendo designado o engenheiro-agrimensor maranhense Joaquim Vieira Ferreira para, junto dos 291 imigrantes italianos vindos da Lombardia, iniciarem o processo de colonização. Juntamente ao engenheiro, chefiavam os trabalhos os catarinenses Manoel Gregório, Manoel Miranda – com o filho Firmo, e Manoel Nazário, que veio com a família de Braço do Norte.


Eng. Joaquim Vieira Ferreira 
09/02/1841 – 17/11/1913
(Retrato: João R. Delmas – 1879)

Nas fotos abaixo, do retratista Ozório do Amaral, observa-se a derrubada inicial da mata e as primeiras casas da Colônia de Azambuja na praça em confluência entre o Rio Cintra e o Rio Pedras Grandes (1877).


A derruba inicial com as primeiras casas de Azambuja. A casa em plano mais alto é a do Diretor da colônia. Entre ela, e a casa branca à direita vê-se a capela de madeira.
Fonte: Museu de Urussanga
Rua Vieira Ferreira, a margem do rio Cintra. Na casa a direita, que serviu depois de quartel, funcionou a primeira escola.
Fonte: Museu de Urussanga

Após permanecerem alguns dias em Azambuja, alguns colonos foram levados para os seus lotes nos rios Pedras Grandes, Canela Grande e Armazém. Giuseppe e Romoaldo Ghisi e suas famílias foram para a localidade de Armazém.

Mapa antigo do município de Urussanga:

Mapa Urussanga Antigo.PNG


Assim como eles, também foram para a região do Rio Armazém as famílias dos imigrantes listados abaixo:

Baesso, Pietro

Bonetti, Domenico

Bonetti, Florindo

Cataneo, Francesco

Carboni, Luigi

Cargnin, Giovanni

Comelli, Ricardo

Dandolini, Lorenzo

Furlan, Valentino

Furlanetto, Bellini

Librelato, Eugenio

Lotti, Carlo

Minotto, Giovanni

Nicoladelli, Pietro

Negri, Domenico

Orlandi, Giuseppe

Peron, Pietro

Pigarelli, Giacomo

Sandrini, Angelo

Zanella, Ferdinando

Zanini, Cirillo

Zappellini, Giacomo

Zappellini, Giovanni

Zappellini, Gaetano

As famílias dos irmãos Giuseppe e Romoaldo Ghisi se estabeleceram na linha Rio Armazém, em Urussanga.

Conforme descrito no Jornal República, de 4 de julho de 1895, a família de Giuseppe Ghisi se instalou no lote 2 desta localidade.

Obs.: Em relação a família de Romoaldo Ghisi, ainda não há informação do lote que lhe foi designado, apenas uma menção de que seria próximo à linha Rio Coral. Espero que alguém me ajude a encontrá-lo:)

O mapa abaixo demonstra a divisão dos lotes na Colônia de Azambuja em 1888, com destaque para linha Armazém.

De acordo com o mapa, existem dois “lotes 2” nessa região.

Porém, antigos moradores de Armazém afirmam que a primeira morada da família Ghisi foi próxima à Linha Pacheco, o que leva a crer que o lote 2 à direita do mapa é a localização mais provável.

Posteriormente, sabe-se que Delelmo Ghisi e sua família foram morar ao lado da Capela de Armazém (28°27’45.9″S 49°16’49.3″W), nessa casa cercada à direita da foto (Propriedade até então da família de Bona).

Obs.: Não há informação se Giuseppe Ghisi e sua esposa também moraram nessa localidade.

Festa da Nossa Senhora do Rosário – 1946

Entre a casa e a Capela ficava a escola da comunidade e, mais ao fundo, do outro lado da Capela, o cemitério.

A família de Delelmo Ghisi e Catharina Zanolli era formada pelos filhos:

Ernesto
Estiliano
Veríssimo
Apollonia
Gentila
Rocco
Antônio
Celeste
Maria
Corina
Terciso
José

Delelmo Ghisi e Catharina Zanolli Ghisi
Passaporte de Catharina Zanolli
Fonte: Centro de Documentação Histórica. Museu ao Ar Livre – Orleans.
(Fornecido por Idemar Ghizzo)
Passaporte de Delelmo Ghisi
Fonte: Centro de Documentação Histórica. Museu ao Ar Livre – Orleans.
(Fornecido por Idemar Ghizzo)


A família tinha uma serraria no terreno em frente à casa, do outro lado da estrada, a qual chegou a pegar fogo e foi reconstruída. Até hoje é possível ver parte da estrutura de pedra da serraria (Foto abaixo). Além disso, tinham um engenho de farinha e uma tafona.

Direita: Parte da estrutura de pedra da serraria / Centro: Local da antiga casa da família Ghisi / Esquerda: Capela de Armazém

Dizem os antigos que na época o Rio Armazém era muito utilizado pelos colonos, onde praticamente cada casa tinha a sua roda de água para utilização de engenhos de farinha, atafonas, serrarias, etc. Porém, com a chegada da energia elétrica, toda essa estrutura foi perdida.

Com o tempo, cada irmão foi tomando o seu caminho.

Estiliano foi para São Bonifácio (Nova Veneza). De acordo com a sua filha, Olívia, foram 6 dias de viagem de carro de boi. O motivo? Busca por terras melhores para o plantio (diziam que a terra em Pedras Grandes não era das melhores) e também pelo fato de Nova Veneza estar se desenvolvendo economicamente.

Antônio foi para Enéas Marques, Paraná. Alguns moradores antigos de Armazém disseram que um dos filhos do Delelmo foi para o Paraná depois de dar um tiro num tropeiro no meio de uma briga. O tropeiro não morreu, mas tendo medo da vingança, ele decidiu ir com sua família para bem longe, no Paraná. Provavelmente esse Ghisi seja o Antônio. Posteriormente, seu irmão Rocco e seu sobrinho Deonísio, também foram para lá.

Celeste foi para Itajaí e posteriormente para Ivaiporã, Paraná. Mas não se tem informações do motivo.

No Armazém, ficaram José, Tercisio e suas irmãs “solteironas” Corina e Maria, as quais eram costureiras e também cuidavam da atafona. Tercisio ficou cuidando da serraria e foi morar no terreno ao lado do cemitério (ao lado esquerdo, já que do outro lado era a Capela).

Tercisio Ghisi (esquerda) e José Ghisi (direita)
Tercisio Ghisi

No armazém de secos e molhados os colonos podiam vender os produtos que cultivavam e comprar aqueles que não conseguiam obter na região.

No início, havia um armazém mais afastado, montado pelos portugueses que vieram abrir o caminho para os imigrantes. Mas com a chegada em massa dos imigrantes nesta região, o antigo armazém deixou de existir e um novo foi montado dentro da comunidade.

Os conflitos entre imigrantes italianos, índios e até portugueses, eram comuns naquela época.

Certa vez um capitão teve que ser chamado para intervir na disputa de terras entre imigrantes italianos e portugueses. Seu nome era capitão Pacheco, o qual criou uma linha para dividir o território de forma clara e acabar com os conflitos na região, ficando conhecida como Linha Pacheco.

Mas os principais conflitos ocorriam com os índios (bugres), conforme pode ser observado em relatos citados no Artigo “OS PRIMEIROS CONTATOS ESTABELECIDOS ENTRE OS XOKLENG E OS IMIGRANTES ITALIANOS NA CIDADE DE URUSSANGA, SANTA CATARINA” de Ketilin Keli da Silva Deisi Scunderlick Eloy de Farias:

Com os índios nunca tiveram contato porque o índio vinha e roubava as plantações, matava os animais. Eles tinham muita raiva dos colonos italianos, porque os verdadeiros proprietários eram os índios. Houve muito massacre, muita morte“.

Ali em Rancho dos Bugres era a casa deles, oca, toda feita de palha, só tinha uma porta, porque de noite era mais quente. Eles se vestiam com uma tanga na frente, algumas tribos era natural mesmo “como Deus mandou” e não tinham vergonha, não conheciam comprar, não tinha fábrica, então eles ficavam nus, viviam da caça e da pesca. Tinha índio por toda a cidade, cada tribo tinha seu local, não eram todos juntos“.

Para quem tem curiosidade sobre os detalhes do cotidiano dessa região na época da imigração, recomendo a leitura dos livros:

Colonos e missionários italianos nas florestas do Brasil.

Autor: Padre Luigi Marzano
Disponível na Biblioteca da UFSC

Azambuja e Urussanga
Memória sobre a fundação, pelo engenheiro Joaquim Vieira Ferreira, de uma colônia de imigrantes italianos em Santa Catarina.

Autor: Desembargador Fernando Luís Vieira Ferreira
Disponível na Biblioteca Pública do Estado – SC e da UFSC

Colônia Azambuja
A imigração italiana no sul de Santa Catarina.

Autores: Eusébio pasini Tonetto, Idemar Ghizzo e Lenir Pirola
Disponível versão impressa na Epagri


Veja abaixo a galeria de fotos e ajude-nos a identificar outros integrantes da família Ghisi 🙂

Fonte: Arquivos do Sr. Valmor Bonetti e da Estação Ferroviária de Pedras Grandes.

Veja também documentos que relatam detalhes do cotidiano dos imigrantes italianos nessa região:



Agradeço a contribuição do Sr. Valmor Bonetti e da Sra. Maria das Dores Ghisi no conteúdo e fotos supracitados!

Fontes:

AZAMBUJA E URUSSANGA – Memória sobre a fundação, pelo engenheiro Joaquim Vieira Ferreira, de uma colônia de imigrantes italianos em Santa Catarina. Desembargador Fernando Luís Vieira Ferreira.

2 comentários em “A vida na colônia

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