Origem

Não se sabe ao certo o significado da palavra Ghisi, mas a sua origem pode estar relacionada ao termo Ghise, plural de Ghisa, que significa ferro fundido em italiano. Portanto, o sobrenome pode ter a sua origem a partir de uma família de ferreiros.

O sobrenome Ghisi é encontrado de diversas maneiras nos livros e documentos antigos, tornando a pesquisa de sua história uma tarefa um tanto quanto desafiadora. Diversas fontes utilizam sobrenomes como Ghixi, Chisi, Chigi, Gisi, Ghisivs (Latim), Gyzi e Γκίζι (Grécia). Além disso, na grafia antiga a letra S era muito similar a letra F, dificultando ainda mais as buscas.

Mas a maioria das fontes convergem na descrição da família Ghisi, conforme exemplo a seguir:

A família Ghisi era originária de Aquileia, em Friuli, mas ligada a Veneza e sua aristocracia por laços de interesse e parentesco que datam da Idade Média.
Membros do Consilium cittadino, parece que os Ghisi haviam recebido dignidade nobre em 1222, através do doge Pietro Ziani, quando Andrea e Geremia Ghisi eram senhores feudais das ilhas de Tino e Mikonos.
Confirmado no corpo do patriciado veneziano no Grande Conselho (1297), no décimo terceiro século – o tempo da expedição militar de Marco Sanudo no Egeu – a família Ghisi fez uma importante contribuição para a vitória da Sereníssima República, ficando com a soberania sobre as ilhas gregas de Sciro, Mikonos, Tinos e um terço de Negroponte até 1390.

 https://it.wikipedia.org/wiki/Ghisi

No que diz respeito ao local de origem da família, existem fontes que citam tanto Aquilea, como Padova/Pádua.

Porém, considerando os registros encontrados até o momento, os mais antigos apontam a família Ghisi como originária da cidade de Padova/Pádua, tendo participação efetiva na fundação da cidade de Veneza, conforme descrito a seguir.

Por volta do século V, com o declínio e, consequentemente, a diminuição do poder do império romano do ocidente, o nordeste da Itália foi devastado pelas invasões dos povos bárbaros (Hunos, Godos, etc). Depois que Átila, rei dos Hunos, destruiu a cidade de Altino, ele se dirigiu à Padova, acampando com seu exército nos arredores da cidade. Preocupados com o perigo iminente, os nobres, cavaleiros e tribunos da cidade de Padova decidiram buscar um novo lugar seguro para habitarem antes de serem destruídos. E assim, no dia 15 de março de 421, o conselho dos ditos nobres e tribunos do Reino de Padova decidiram construir uma cidade na ilha de Rivoalto, na lagoa de Veneza (uma ilha ligeiramente mais alta que as outras, por isso se chama Rivus Altus, daí Rialto – hoje Veneza).

Exemplo de ambiente lagunar que os padovanos provavelmente encontraram na época.
Fonte: https://it.m.wikipedia.org/wiki/Rialto_(Venezia)

Observação: Algumas fontes citam que a razão desta escolha é o difícil acesso, principalmente pelo fato do exército Huno, assim como os demais naquela época, eram formados por cavalarias.

E assim, foram nomeados três cônsules de Padova como responsáveis por estabeleceram uma nova comunidade na lagoa, unidos na defesa mútua dos povos invasores: Giulio Falier, Tomaso Candiano e Cosmo Paulo. Dois anos depois, foram eleitos três novos cônsules: Luciano/Lucio Ghisi, Massimo Lucio, Ugo Foscolo. Estes foram enviados para a ilha de Rivoalto e, em 20 de setembro de 423 , com muitos outros tribunos, finalizaram a construção da nova “cidade”. Eles permaneceram para viver lá, assim como os três primeiros cônsules, e então muitos outros tribunos começaram a construir casas da melhor maneira que puderam.

Em 452, Átila cercou Aquilea iniciando uma série de batalhas travadas contra o Império Romano do Ocidente (Até então, não havia invadido Padova ainda).

Aquilea foi fundada em 181ac pelos romanos, como uma colônia para bloquear o caminho para bárbaros que ameaçavam as fronteiras orientais da Itália. A cidade constituiu um dos grandes centros nervosos do Império Romano, com mais de 200.000 habitantes. Algumas fontes indicam que este cerco chegou a durar por três anos. De acordo com o livro “Guida Storica dell’ Antica Aquilea“, é nesse momento que membros da família Ghisi de Aquilea também se mudam para Veneza:

No perigo visível da Aquilea sitiada, muitos habitantes se espalharam em Veneza, já fundada em Rialto em 421 pelos padovanos, fugidos nas primeiras incursões dos godos”…”Entre as muitas famílias, em várias épocas, recorda-se: Pipini, Bolani, Leucari, Ghisi, Giulî, Tornado, Trevigiano, Diodo, Nicolei, Lucci, Onniboni, Fortunati, Orsi, Magamorni, Lugnani, Barbati, Borselli, Aventu radi, Prothi, Cisi, Tornei, Bredani, Gan, soni, Ma lachî, Isegoldi, Meruli, Gradaloni, Aoldi, Alipato,Arimondi, Balbi, Blonzeni, Delfinigi, Pianigo, Mazamani, Diseovertini“.

É provável que estes membros da família Ghisi tenham passado por Grado, conforme citado no livro “Lagune di Grado”, um porto importante à época, muito próximo a Aquilea, no qual foi construída uma fortaleza quando muitos habitantes de Aquilea se refugiaram na ilha para escapar das hordas de invasores.

Fortaleza de Grado (Castrum)
Fonte: https://www.ristoranteagliartisti.it/2013/06/06/castrum-gradese

Em 967, a família Ghisi, em conjunto com as famílias Adoldi e Briosi, fundaram a igreja de Igreja de San Simeone Profeta, em Veneza.

Após este período, outros membros da família Ghisi são rastreáveis em Veneza a partir do século XII. Estes são Lázaro Ghisi, de Cannaregio (1147), Domenico Ghisi, de San Simeon (1172), Giovanni Ghisi que supostamente comandou uma das galés durante o ataque à cidade de Zara (1187) e Peregrino Ghisi, que se torna membro do Conselho de Veneza (Maggior Consiglio) em 1196.

O Maggior Consiglio era o mais alto órgão político da República de Veneza e se reunia em uma grande sala especial no Palácio do Doge.

A reunião do Grande Conselho

A participação no Maggior Consiglio era um direito hereditário e exclusivo das famílias patrícias registradas no Livro de Ouro da nobreza veneziana, que se constituíam nele um estado.

O fundamento básico para pertencer ao Patriziato de Veneza era a posse exclusiva do poder político. O patriciado de Veneza baseava seu poder não na posse da terra, mas na riqueza do comércio com o Oriente na base de toda a economia. Isso estimulou essa classe social a um dinamismo notável. Os patrícios serviam assim a si próprios e ao Estado como capitães de galés, mercadores, embaixadores, governadores, funcionários públicos e em todas as outras formas de organização civil e militar da República.

Nessa época, Veneza era muito mais do que uma cidade turística como é conhecida nos dias de hoje.

A força de Veneza nasceu do desenvolvimento de relações comerciais com o Império Bizantino. Embora com crescente independência, Veneza permaneceu aliada do Império Bizantino contra os árabes e normandos. Graças à imensa fortuna arrecadada através do comércio marítimo e terrestre com todo o mundo então conhecido, Veneza tornou-se a mais potente das quatro Repúblicas Marítimas da península itálica, que tinham o domínio comercial das rotas do mar Mediterrâneo.

Em 1204, durante a Quarta Cruzada, os cruzados junto com os venezianos tomaram Constantinopla dos bizantinos e criaram o Império Latino. Veneza adquiriu a posse das ilhas e das localidades marítimas comercialmente mais importantes do Império Bizantino.

Nesse momento, aparecem dois personagens importantes da família: Andrea e Geremia Ghisi. O antigo ramo da família Ghisi possuía portos comerciais em algumas ilhas jônicas, como Schiza, e também no Mar Egeu, como Andros, Mikonos, Skopelos e Skiathos. 

Algumas fontes divergem sobre o fato dos irmãos terem participado da Quarta Cruzada, mas nos anos seguintes, quando os cruzados e venezianos começaram a conquistar o resto do território grego, é certo que em 1207 Andrea Ghisi conquistou as ilhas de Tinos e Mykonos e Geremia Ghisi ocupou Skopelos , Skiathos e Skyros, tornando-se os Senhores das ilhas em uma hegemonia da família Ghisi que governou as ilhas por cerca de dois séculos, sendo o último representante George III Ghisi (1384–1390), senhor de Tinos e Mykonos.

A conquista desses e outros importantes portos, como Corfu e Creta, garantiram à Veneza um comércio que se estendia ao Oriente, e alcançava a Síria e o Egito, pontos terminais do fluxo mercantil. Ao fim do século XIV, Veneza era a principal potência mercantil do Mediterrâneo e um dos estados mais ricos da Europa.

Fonte: https://diegopuga.org/maps/
Assistir a partir de 1:06

Até hoje é possível ver os rastros deixados pela família Ghisi na região das ilhas gregas, como é o caso do Castelo Ghisi (Gyzi), em Mykonos.

“As ruínas do Castelo Gyzi são um marco bastante perceptível na ilha de Mykonos. O castelo está situado em uma colina com vista para a vila de Ano Mera. Na época, este castelo foi projetado para vigiar a vila e seus habitantes. Construído no século XIII pela família Gyzi, que governou Míconos durante esse período, o castelo foi construído como uma fortaleza contra inimigos estrangeiros e também para piratas. Paredes e estruturas fortes e impenetráveis ​​eram um refúgio onde os aldeões podiam se esconder ou lutar contra saqueadores ou intrusos que procuravam habitar a ilha”.
Fonte: https://www.greekboston.com/travel/gyzi-castle-mykonos

Fonte: Kastra.eu
Fonte: Kastra.eu

Obs.: Saiba mais informações sobre os irmãos Andrea e Geremia Ghisi no site Treccani.

Porém, foi Agnese Ghisi, irmã de Andrea e Geremia, que chegou ao topo da Sereníssima República como Dogaressa de Veneza!

De acordo com o livro “The dogaressas of Venice : The wifes of the doges” (1845), posteriormente outra integrante da família também chegou à essa posição: Marchesina Ghisi.

The dogaressas of Venice :
Agnese Ghisi, esposa do Doge Lorenzo Tiepolo (1268 – 1275)
Marchesina Ghisi, esposa do Doge Lorenzo Celsi (1361 – 1365)



Curiosidade! Nesta mesma época viveu Marco Polo, (Veneza, 15 de setembro de 1254 – Veneza, 8 de janeiro de 1324) o famoso viajante, escritor, embaixador e comerciante italiano (Veja parte de sua história na série “Marco Polo”, da Netflix). O relatório de suas viagens pelo Extremo Oriente é coletado na obra “Il Milione”, uma enciclopédia geográfica que reúne o conhecimento essencial sobre a Ásia do século XIII. Sua obra acabou se perdendo ao longo do tempo, restando apenas uma série de manuscritos com diferentes idiomas e versões, provavelmente se distanciando do texto original. Porém, em 1550, Giovanni Battista Ramusio reescreveu a história de Marco Polo no livro “Delle navigationi et Viaggi”. De acordo com o próprio autor, ele obteve uma cópia do livro original, de maravilhosa antiguidade, e talvez copiada do original na mão de Marco Polo, por um grande amigo da família Ghisi.

É provável que Marco Polo, por também ser um comerciante veneziano, tenha conhecido membros da família Ghisi, conforme pode-se observar no texto abaixo do livro “Byzantium and the Other: Relations and Exchanges”, de Angeliki E. Laiou.

Após este período, muitos outros membros da família Ghisi apareceram ao longo da história, sendo alguns citados nas seções Membros Notáveis e Família de Artistas. Até chegarmos em 1877, quando dois irmãos da família, com muita coragem e esperança numa vida melhor, resolveram trazer sua mãe, esposas e filhos ao Brasil, numa viagem inacreditável contada na seção Viagem Itália – Brasil.



Fontes:
L’eta del comune – L’avvio: IL PRIMO COMUNE – Storia di Venezia
L’isola di Tinos dai Ghisi alla Serenissima (XIV-XV secolo)
Lagune di Grado
https://it.wikipedia.org/wiki/Ghisi
The dogaressas of Venice : The wifes of the doges
https://www.venicecafe.it/tintoretto-san-demetrio-con-il-donatore-1545-1547-chiesa-di-san-felice/
Rerum Italicarum scriptores, Volume 26 (1733)
LE DESCRITTIONI VNIVERSALI Et Patricolari del Mondo, & delle Republiche (1660)
Poemetti popolari italiani (1889)

Um comentário em “Origem

  1. Sou filho de Isaura Ghisi(falecida) e Manoel Fernandes cujos avós maternos são: Silvio Ghisi e Margarida Ghisi; bisavós: Guerino Ghisi e Carmelita Sandrini; tataravós: Romoaldo Ghisi e Santa Stefanini.

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